|imagem: reprodução de Arno Rafael Minkkinen|
1. Os últimos dias, por “motivos de força maior”, daqueles que nos mandam para a cama a caldos de galinha ou lá que o valha, se não foram deprimentes, ainda assim não andaram longe dos mínimos olímpicos; mas nada daquela gripe da moda, se bem entendido… mesmo em matéria de doenças, não gosto dessas modernices para encher os telediários.
Aborrecido mesmo, (se isso interessasse a alguém…) foi, como sempre, o excesso de vontade para colocar a leitura em dia, aliada a fraquíssima disposição, sequer, para levantar um livro do Tio Patinhas! – Escrever? Nada mais relevante que um acordo daqueles tipo Copenhaga 2009… não, nada! Já o MEC dizia que nesta matéria de doenças, todos os homens são maricas… concordo e discordo a cem por cento, em simultâneo: claro que para a maioria uma influenza de trazer por casa, pode tornar-se em tempo record, numa broncopneumonia, um cancro qualquer acabadinho de inventar, a julgar pela cor da expectoração, ou quem sabe, numa doença terminal… por outro lado, o marasmo de uns dias forçados “de cama” é tortura para quem sabe que o mundo “lá fora não funciona na nossa ausência”, “tudo vai parar! Até a resolução do Obama lá para o esquema da Saúde”… enfim, caldos de galinha, chá de limão e montes de televisão, cada um toma a que quer! E pior ainda… dormi tantas, dentro e fora de hora, que ainda neste momento, olho para um monitor e vejo uma almofada! – É obra!
Ainda assim, podia ser pior, mesmo que esta actividade circense que a maioria teima em apelidar de Natal, não me retire um suspiro sequer, nem por uma rabanada!
Diria, que o dia do dito foi salvo pelo Citizen Kane, que revi e para meu grande espanto, descubro mais um pormenor aqui, outro ali, numa película que só não é perfeito enquanto não conseguir descobrir se aquele rosto que aparece num breve segundo, na festa de Xanadu, é ou não o Louis Armstrong… até lá, não duvido que é o melhor filme desde sempre realizado por mão e olho humano (ainda que já estivesse tentado muitas vezes a trocar os restantes lugares do podium, que são o Apocalipse Now e Ran de Kurosawa!).
2. Todavia, nem tudo foram perdas, nem tudo foram ganhos, foi o que teve que ser, contra a minha vontade, mas o tempo dos super-homens já lá vai. A bagagem que já trago atrelada à idade já me limita a velocidade e o que me retira em vigor, retribui-me em discernimento de diferença entre estrada, caminho e atalho.
Nestes últimos dias, contudo, deu-me para aquela coisa estranha que gostamos de acenar a tempo inteiro, que fazemos: meditar! Tentei retirar o entulho dos últimos trezentos e tal dias, para além de tentar descortinar o que poderão ser os próximos, contudo, tento sempre chegar a um acordo com o Leonardo, que essa coisa de “passagem de ano”, no calendário, não aquece nem arrefece, a quem se vai habituando a largar a pele da serpente que é a ingenuidade que trazemos na bagagem de mão, sempre presente; apenas o número muda! Na essência, a imprevisibilidade continua o seu caminho, impávida e serena, e o que contam mesmo são as pessoas: as que foram abandonando a nossa sala de estar da alma, a que haverão de entrar sem pedir licença, as que requerem os nossos cuidados intensivos, as que partilham, as com quem partilhamos, as que são a nossa vida, aquelas por quem damos a nossa em qualquer circunstância… mais um ano? Apenas, mais um número! O que contam são aquelas que nos ajudam a contar, a percorrer sem sobressaltos, as folhas do calendários… mas isso, isso é outra história!
Colmeal, 29 de Dezembro