2 de Janeiro de 2010

My Emotional Weather Report (19)


You're dangerous 'cause you're honest
You're dangerous, you don't know what you want
Well you left my heart empty as a vacant lot
For any spirit to haunt...

Who's Gonna Ride Your Wild Horses por U2


29 de Dezembro de 2009

My Emotional Weather Report (18)

.
A todos aqueles que foram abandonando o meu livro da vida, para se tornarem actores do meu filme de memórias, ou porque não entenderam que existe mais mundo para além de viver a vida em terceira pessoa, ou porque compreendem esta coisa de viver, como uma roda para Hamster… em cada um de nós, acredito, um novelo que aguarda pacientemente pela nossa persistência de procurar o fio. Fico triste por ficarem para trás no caminho, alguns que não entendem que todo o ser humano procura o sentido de si; encontrei uma das múltiplas formas de abordar esse sentido, e regozijo-me… é que também me encontrei a mim!



Into My Arms por Nick Cave




Os abraços nunca se encerram em si próprios: aguardam, enquanto procuram! E a chave da “minha porta” está no sitio do costume…

Podia Ser Pior…

|imagem: reprodução de Arno Rafael Minkkinen|

1. Os últimos dias, por “motivos de força maior”, daqueles que nos mandam para a cama a caldos de galinha ou lá que o valha, se não foram deprimentes, ainda assim não andaram longe dos mínimos olímpicos; mas nada daquela gripe da moda, se bem entendido… mesmo em matéria de doenças, não gosto dessas modernices para encher os telediários.
Aborrecido mesmo, (se isso interessasse a alguém…) foi, como sempre, o excesso de vontade para colocar a leitura em dia, aliada a fraquíssima disposição, sequer, para levantar um livro do Tio Patinhas! – Escrever? Nada mais relevante que um acordo daqueles tipo Copenhaga 2009… não, nada! Já o MEC dizia que nesta matéria de doenças, todos os homens são maricas… concordo e discordo a cem por cento, em simultâneo: claro que para a maioria uma influenza de trazer por casa, pode tornar-se em tempo record, numa broncopneumonia, um cancro qualquer acabadinho de inventar, a julgar pela cor da expectoração, ou quem sabe, numa doença terminal… por outro lado, o marasmo de uns dias forçados “de cama” é tortura para quem sabe que o mundo “lá fora não funciona na nossa ausência”, “tudo vai parar! Até a resolução do Obama lá para o esquema da Saúde”… enfim, caldos de galinha, chá de limão e montes de televisão, cada um toma a que quer! E pior ainda… dormi tantas, dentro e fora de hora, que ainda neste momento, olho para um monitor e vejo uma almofada! – É obra!
Ainda assim, podia ser pior, mesmo que esta actividade circense que a maioria teima em apelidar de Natal, não me retire um suspiro sequer, nem por uma rabanada!

Diria, que o dia do dito foi salvo pelo Citizen Kane, que revi e para meu grande espanto, descubro mais um pormenor aqui, outro ali, numa película que só não é perfeito enquanto não conseguir descobrir se aquele rosto que aparece num breve segundo, na festa de Xanadu, é ou não o Louis Armstrong… até lá, não duvido que é o melhor filme desde sempre realizado por mão e olho humano (ainda que já estivesse tentado muitas vezes a trocar os restantes lugares do podium, que são o Apocalipse Now e Ran de Kurosawa!).

2. Todavia, nem tudo foram perdas, nem tudo foram ganhos, foi o que teve que ser, contra a minha vontade, mas o tempo dos super-homens já lá vai. A bagagem que já trago atrelada à idade já me limita a velocidade e o que me retira em vigor, retribui-me em discernimento de diferença entre estrada, caminho e atalho.
Nestes últimos dias, contudo, deu-me para aquela coisa estranha que gostamos de acenar a tempo inteiro, que fazemos: meditar! Tentei retirar o entulho dos últimos trezentos e tal dias, para além de tentar descortinar o que poderão ser os próximos, contudo, tento sempre chegar a um acordo com o Leonardo, que essa coisa de “passagem de ano”, no calendário, não aquece nem arrefece, a quem se vai habituando a largar a pele da serpente que é a ingenuidade que trazemos na bagagem de mão, sempre presente; apenas o número muda! Na essência, a imprevisibilidade continua o seu caminho, impávida e serena, e o que contam mesmo são as pessoas: as que foram abandonando a nossa sala de estar da alma, a que haverão de entrar sem pedir licença, as que requerem os nossos cuidados intensivos, as que partilham, as com quem partilhamos, as que são a nossa vida, aquelas por quem damos a nossa em qualquer circunstância… mais um ano? Apenas, mais um número! O que contam são aquelas que nos ajudam a contar, a percorrer sem sobressaltos, as folhas do calendários… mas isso, isso é outra história!

Colmeal, 29 de Dezembro

23 de Dezembro de 2009

Mais um postal de Natal? Nem pensar!…

O meu desejo, amanhã, depois de amanhã, todos os dias, está contido numa pequena porção, dentro desta canção… e da mesma forma que gostaria de receber, penso que o Paul Simon e o Art Garfunkel não se vão importar de o deixar aqui: para ti, para mim, para toda a gente que ainda tem um tambor do peito para tocar a percussão da vida:

Bridge Over Troubled Water por Simon & Garfunkel



Algures por aí, num ribeiro…


22 de Dezembro de 2009

My Emotional Weather Report (17)

Mercy Street por Peter Gabriel




Impressão Digital de António Gedeão

Os meus olhos são uns olhos.
E é com esses olhos uns
Que eu vejo no mundo escolhos
Onde outros com outros olhos,
Não vêem escolhos nenhuns.
Quem diz escolhos diz flores.
De tudo o mesmo se diz.
Onde uns vêem luto e dores
Uns outros descobrem cores
Do mais formoso matiz.

Nas ruas ou nas estradas
Onde passa tanta gente,
Uns vêem pedras pisadas,
Mas outros, gnomos e fadas
Num halo resplandecente.
Inútil seguir vizinhos,
Querer ser depois ou ser antes.
Cada um é seus caminhos.
Onde Sancho vê moinhos
D. Quixote vê gigantes.

Vê moinhos? São moinhos.
Vê gigantes? São gigantes.

20 de Dezembro de 2009

Não há melhor livro que o que está para ser escrito…

|imagem Google Images de Salman Rushdie em cpt por.8536720|

... Mas, acontece que, respondendo ao desafio do Caro William, de entre as minhas pobres leituras de 2009 (bastantes livros, mas…) destacaria uma frase, um conto e um livro… e curiosamente de todos eles apenas um, creio, é da colheita de 09:

Dos livros que me transpuseram para além da leitura em si, o Salman Rushdie voltou a surpreender-me com o Shalimar,o Palhaço (2005), que por motivos óbvios não vou descrever, nem “cronicar”, nem ajuizar com as estrelinhas do costume. Do Salman Rushdie, (e igualmente do Murakami), espero, ao contrário do que me indica o coração, que não ganhe nunca o Prémio Nobel, esse certificado de óbito literário, pelo menos não tão cedo! Os livros de Rushdie são aldeias do mundo: neles cabem os mundos inteiros, as suas contradições, os “jogos de espelhos” entre personagens que encontramos todos os dias, nem que seja diante do nosso próprio espelho, mas sempre com a mágica aura de irreal, de absurdo, de inimaginável, de contenção explosiva, que se não conta a história dos homens nesta pobre terra, pelo menos deixa questões sobre questões, novas formas de interrogar a vida, tal como numa aldeia em ponto grande, em ponto pequeno, no seu próprio formato, que se detém diante do nosso olhar, do nosso quotidiano, sem que o mais das vezes se consiga descortinar o sentido… os livros de Rushdie são o aparentemente real e o seu aparente oposto, ao mesmo tempo, que deixam no seu reflexo o imperativo da sua compreensão. Os livros de Rushdie rascunham o mundo de uma forma mágica, transponível, mas sempre à beira do nosso próprio precipício… e Shalimar, não foge a essa regra básica de Salman: onde há uma presença, existe sempre o seu contrário! – Não existe personagem que escape a esta “sina”, a esta marca como só Salman Rushdie sabe imprimir…

Do Conto Sina de Escarumba, do R. Zimler, no Confundir a Cidade com o Mar e a Frase de Rui Zink, ambos estão improvável e intimamente ligados: as [minhas] aventuras no mundo da escrita, têm ganho neste ano, uma expressão que não tinha conhecido antes, e os seus pilares assentam muito nestes atrás, e na “persinsistência” da minha esposa para não abdicar deste projecto de sempre, nunca mais que isso, que é a escrita provisória de quem tenta aprender nos restos da vida a vasculhar algo mais que um sentido, uma expressão vaga; apesar das minhas dúvidas e “hipotéticas desistências” da tarefa do textoa, e sobretudo da sua manutenção através dos meus blogs, a sua vontade, o seu “acreditar” excepcional e único, no meu circulo pessoal (no qual me mantenho ainda ignorado… com todas as suas vantagens e desvantagens!), aliado a um “desafio do Rui Zink”, não desisto… porque desistir seria abdicar de mim e dos que trago “cá dentro”!. Antes de me lançar na aventura da Barca dos Amantes, escrevia neste blog:

Nunca me impressionou que alguém aos vinte anos sonhe ser poeta; tenho, isso sim, genuína admiração por uma pessoa que aos quarenta ainda escreva poesia. Sobretudo se a escreve para si, não para se exibir ao mundo em todo o seu esplendor, mas porque ainda é capaz de hesitar perante o mistério do mundo. Sim hesitar. A poesia que se preza é sempre hesitante; as certezas ficam para a prosa

Não sei onde começa ou termina a razão do Rui Zink, não sei porventura, se há tantos mistérios e desafios na vida, que ainda não tenham sido desvendados pela poesia, que creio ser de todas as artes, a única que não tem uma certeza; hesitações e interrogações? Muitas, e serão provavelmente os seus fundamentos únicos… digo eu, vá, não sei!

O caro Rui Zink, que se impressiona muito com a “coragem” dos que sonham aos quarenta, com outra ordem do mundo, bem que pode orgulhar-se de mais uma vitória nesta jornada: com um hiato de vários anos, desde que deixei a “arte do verso”, até hoje, nunca hesitei em dizer que essa história, que essa água, dificilmente correria ao longo das margens e debaixo das pontes uma vez mais… enganei-me, para o bem e para o mal: como há muito e se há coisa que irrita este humilde, são portas e gavetas, e se regressado a essa crepitação de vida, que é a poesia, a arte dos aprendizes de vida e de sonhos, não posso deixar de fazer uma outra arte, que é a partilha… as mais novas letras, hesitantes ainda, nos seus montinhos, na sua desordem provisória, vão encontrar um espaço também… que nas minhas poucas gavetas, não têm lugar e sem a ordem da partilha, fariam o mesmo sentido, mas perderiam a cor, desbotariam um pouco mais, porque não me pertencendo desde o momento que as alinho, as palavras, deverão, se puderem, ficar por aí, na sua provisória prateleira… como tudo nesta vida!

A Barca dos Amantes, aguarda os seus navegantes, passageiros de rios que não se sabem onde vão dar… mas em algum sítio, haverão por cais, o destino! A esplanada das minhas letras, à medida que se alarga, cada vez menos me pertence… é essa a magia da palavra!”

Mantenho e contradigo o poeta enquanto puder:

Eu sei por onde vou;
Sei que vou por aqui!
Enquanto eu me quiser
Enquanto me for permitido…

Castelo Rodrigo, 20 de Dezembro

18 de Dezembro de 2009

My Emotional Weather Report (16)

Ainda não perdi por completo a esperança de escutar o "A Drop in Time", num filme de Tim Burton, que já imaginei vezes sem conta... mas hoje, hoje, soa-me bem este

Opus 40 por Mercury Rev





15 de Dezembro de 2009

Ophelia


Confesso que não sou grande admirador de felinos em geral e gatos em particular, mas confesso também, que de vez em quando gosto, por sentir como salutar, de mudar de ideias, baralhar e voltar a dar… mas, quanto a gatos, abro apenas uma excepção de sete em sete anos!
Há dias, apareceu aqui pelas redondezas uma Gata, com um andar tão… firme e poético, que não hesitei (pese embora o drama do seu antigo dono ter-lhe chamado Patanisca ou algo que o valha!) em chamar de Ophelia, Dona Ophelia! Há qualquer coisa que me diz que já se cruzou, algures, com o Pessoa! Digo eu, vá, não sei…

Castelo Rodrigo, 15 de Dezembro

14 de Dezembro de 2009

A neve de Leonard Cohen , que estranho idioma, esse…

Porque me é permitido, é com alguma frequência que revisito alguns dos melhores “fotogramas imaginários” da minha vida, onde por vezes acrescento, com a distância que se torna um obstáculo (mas também uma óptima cenógrafa), alguma particularidade, um ponto, um registo de lapso de tempo, um pormenor que não estava lá, mas tem que estar!… Porque a nossa memória não vem configurada em alta definição (Graças ao Programador Informático do Divino, presumo…).

Fosse exagero, era verdade; não o fosse, era também! – Ao rascunhar umas quantas palavras, em forma de texto poético, dedicado ao Leonardo Cohen, lá na Barca dos Amantes, recordei-me do “meu primeiro encontro” com esse impressionante Poeta, quase impossível, quase ausência de substância e o todo em igual proporção… se não servir a ninguém, pelo menos que me reavive um pouco mais a memória:
Na brevidade da minha adolescência, creio que no meu oitavo ano, tive por professora de Ciências Físicas-Quimicas, uma “personagem” que conseguiu a proeza de me levar à quase positiva nota, nessa disciplina, e apesar de gorados os seus intentos, “ganhei” mais que uma mera nota de avaliação (afinal até consegui decorar(!) a grande parte da tabela periódica…).
A G., a Professora G., era, para os padrões de então, o que se tinha por “profe bacana, do melhor que há” e uma quase infinita paciência para aqueles rebeldes sem pausa, na Anselmo de Andrade, provisória de vinte anos, degradada até á sua medula… ser professor, naquelas condições, acredito hoje, deveria ser uma acto de coragem e bravura, equivalentes à missão do Capitão Benjamin, no Apocalipse Now! Mas isso são outras histórias… uns aguentavam, outros não; a lei da vida! – A Professora G., um misto de Lene Lovich com um toque adocicado de vocalista das Miranda Sex Garden, era um ser do deslocado na idade, para entrar pelo nosso mundo adentro; espera-se duma professora de Ciências, que seja parecida com as catequistas do século passado e aparece-nos a Siouxsie Sioux em pessoa, dentro da sala… com a diferença que conseguiu verdadeira proezas, senão em notas (miseráveis, na generalidade…), pelo menos em interesse cativado e conhecimento que “o pessoal” gentilmente recolheu… e diria, que se pudéssemos, enquanto turma, atribuir uma medalha de mérito a alguém naquele “caos”, seria precisamente à Professora G.; por unanimidade, creio!

Um belo dia (provavelmente chuvoso, mas um tipo tem que embelezar a prosa…), a G., que por norma era recatada no seu mundo, apareceu com um monte estreito de vinis, trinta e três rotações, muito bem estimados, que colocou naquela coisa que usualmente chamávamos de secretária, mas não passava dum tampo sobre quatro pernas esengonçadas e, adiante… o que não me impediu de imediato ao naturalissimo “sôtora, posso ver?”, claro! – estávamos nos nossos cinco minutos de relax total, antes de começar a matéria a doer (compensávamos bem os cinco minutos extra… o silêncio no resto da aula era quase sepulcral; ao contrário do que se poderia imaginar numa aula chata como o potássio ali mesmo à mão semear…). - Recordo-me bem; Greetings from qualquer coisa dum tal de Bruce Springsteen, Patti Smith, um com uma capa fantástica, sem qualquer referência (Discipline, dos King Crimson, mas não tenho a certeza…) e “Songs of Love and Hate”… de Leonard Cohen – “sôtora, qué qué isto?” – “isto, senhor poeta, é um primo seu muito afastado, que lhe vai ensinar muito se o souber escutar! Queres que te empreste?”

A minha relação, conturbada, com o Leonard Cohen, que nasceu duma forma improvável, mantém-se ao longo destes anos, e desde o primeiro instante que escutei o Last Year’s Man, não tive dúvida que um dia haveria de ser poeta a sério, com um cão por companhia, num carreiro limpo, rodeado duma floresta cheia de neve, flocos a caírem das folhas de Carvalhos e Freixos, uma neve de flocos como nos filmes de Natal Americanos, e eu… Poeta, quase órfão de palavra, mas numa constante procura pelas minhas raízes, o meu momento solitário, a estrela cadente breve que se haveria de esconder na noite fria e clara, dentro do universo, dentro duma caixa de tamanho inimaginável, onde estamos, correndo, andando, parando, contemplando, ou seja, vivendo e morrendo, para dar a vez a outro.

Ainda, hoje, quando escuto a Famous Blue Raincoat, o Joan of Arc, e sobretudo o Sisters of Mercy (de “Songs of Leonard Cohen”) o que me vem à memória mais ou menos virtual, é a neve, é tudo o que o Poema Aberto ,contém... Parece-me!

Sisters of Mercy por Leonard Cohen



From the Movie Mc Cabe and Mrs Miller

Sinceramente,
Leonardo B.



Castelo Rodrigo, 14 de Dezembro


11 de Dezembro de 2009

Objectos Pessoais XLIII





Outros Abrigos de Leonardo B.

Outros Abrigos de Leonardo B.
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