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[Foi com surpresa, que há pouco mais de um ano (talvez Junho ou Julho) recebi o convite por parte do Marcelo Novaes, para uma pequena “conversa”, a editar no seu Bloco de Notas, ao qual prontamente acedi, pese a hesitação natural nestas ocasiões: foi a primeira “conversa” … e aconteceu!
Também com alguma surpresa e não menos tristeza, há uns dias, o Marcelo comunicou-me que iria encerrar esse blog, onde esta conversa, bem como muitas outras de algumas autores que tanto admiro, pessoas que incondicionalmente estimo e sinto uma empatia extraordinária, (seja pelo seu trabalho, seja pela sua forma de estar!), foram meticulosamente trabalhadas pela excelência de comunicação do Marcelo, pela sua argúcia e pertinência na pergunta, na inteligência de produzir a matéria da conversa e conduzi-la duma forma “tão natural” quanto “desarmante”. Essa “conversa” foi um momento impar, para este, neste curto percurso que mantenho e como tal o guardo; se a reproduzo a seguir e dela não retiro uma virgula que seja, é pela imensa admiração que, para além de qualquer circunstância, nutro e estou certo que nutrirei pelo Marcelo, e pelo que a sua presença representou no meu “doloroso crescimento” na escrita, neste curto percurso que tenho partilhado, o mais que posso, o mais que sei, o mais que tenho, incondicionalmente… e nem faria sentido de outra forma!
Na esperança que esta “conversa” se perpetue um pouco mais no tempo, aqui a deixo, aqui a entrego!
Um grato e imenso abraço, Marcelo!]
Marcelo Novaes: Leonardo, as palavras nos pertencem em regime provisório. Qual é o Território da Palavra?
Um mundo imenso… quase imperceptível, mas imenso! Um território em permanente destruição e reconstrução, um edifício que se constrói e destrói a uma velocidade constante… ou pelo menos assim pode parecer num primeiro olhar. E é nesse olhar, quase primitivo, que a palavra surge: um constante campo de batalha, onde perecem significados, retomam-se as posições e se pretendem delinear a palavra enquanto arquétipo, enquanto modelo a tomar. A palavra, enquanto território comum nasce num determinado tempo para morrer muito adiante, e tarde ou cedo retoma-se como uma ressurreição muito peculiar de sentido: a quem pertence a palavra, enquanto signo, enquanto redução de pensamento a uma constante, quase instrumento de precisão? Ao mundo da literatura? A que mundo?
Não creio que haja uma definição universal para o uso da palavra enquanto instrumento de precisão, alinhado com o pensamento e quando alego que em última instância a palavra não me pertence, senão da forma como a componho ou não, refiro-me sobretudo à relação que deveremos ter com a palavra, como instrumento de trabalho: não a posso possuir, porque efectivamente não me pertence, ao contrário daqueles fanáticos quase insuportáveis que se agarram com unhas e dentes à doença do plágio… sim, é doentia essa relação! Claro que não o defendo, o plágio, até porque parto do princípio que pretendo para com a palavra, uma relação de lealdade, uma espécie de compromisso muito particular… quase mandamento: não copiarás! Como tal não temo a cópia fraudulenta, porque também não a pratico… mas que devemos deixar uma espécie de clausula de salvaguarda, porque até, desde os tempos bíblicos que não se escreve nada de novo ou quase nada, então a relação com a minha, a nossa relação com a palavra será sempre saudável porque tacitamente o nosso território delimita-se a si próprio, sem a sombra obsessiva da “imitação”… afinal estamos só a lidar com palavras e como já fazia notar Horácio, algumas perecem e vão ressuscitar mais adiante, “muitas, agora cheias de prestigio, cairão, se assim o quiser o uso”
Eu chamaria tua poesia de elemental, pelo uso que ela faz dos elementos que constituiriam o ser das coisas, no sentido da procura da proto-matéria ou das matrizes universais do mundo: coisa de pré-socrático [Anaxágoras, Anaximandro, Heráclito, Empédocles...] ou de alquimista. Você se dá conta dessa procura pelos Elementos Primeiros na tua Poesia, isso é intrínseco à toda Poesia, ou é coisa minha mesmo, de mau leitor?
Bom… gostaria de acreditar de não existem nem bons ou maus leitores, assim como não existem maus escritores: existiram e vão continuar a existir indivíduos que não fazem o uso mais correcto da ordem da palavra e outros que o fizeram de forma soberba, mas não conseguiram adiantar grande coisa à história de si próprios, enquanto titulares dos nomes do tempo.
Mais que matéria, ou amálgama estética, a forma como encaro a composição poética deve mais a uma espécie de desambiguação da natureza humana interior e uma outra perceptível que me rodeia… penso que a matéria sensorial imediata não me satisfaz como abordagem ao mundo, como linguagem a explorar. Enquanto veiculo natural da linguagem, a poesia pode atrever-se a procurar uma representação de todas as complexas relações, inesgotáveis presumo, entre o Eu e a Natureza, entre os fenómenos que existindo encontram-se num reflexo continuo, num encontro unificador dentro da palavra. E será alquímico o processo? Não, se por enquanto, para o poeta o mundo não se condensar nas ciências ditas ocultas; o poeta não é visionário, não é profeta, nem tão pouco uma espécie de semideus, mas antes um homem de laboratório, um individuo que procura no escuro uma ponta de claridade, um individuo que no seu laboratório, solitariamente, procura condensar o mundo não numa fórmula, mas numa hipótese. A linguagem matriz do poeta, a procura duma metalinguagem própria, toca muitas vezes nesse principio conciliatório, o mais possível mesmo, nas sensações e percepções múltiplas, no que muitas vezes se apelida de “reconciliação de vida e sentimento”… e esse é o momento matricial da longa viagem da poesia: primeiro, a procura incessante dos materiais de construção, o delinear renovado da matéria do mundo, o olhar distante, vago, subtil ou mesmo complexo e depois, depois da fase de crisálida e consequente renascer para o mundo em borboleta, sem rota nem plano de voo, marcados.
A poesia utiliza mais a génese dos elementos e da matéria como um horizonte a desconstruir, que um ser que tenta metamorfosear-se com o lado descontínuo, desigual da vida. Basicamente, se entendermos o mundo como um conjunto de acidentes que a ciência tenta abarcar e compreender, ao poeta cabe mais o papel de redefinir o olhar sobre o mundo: ao poeta, mais que aproximar da matéria, recebê-la e inscrever uma fórmula para esse próprio fenómeno, cabe-lhe o papel de reflexão: esse o ponto de intersecção com alguns dos loucos bíblicos… a natureza basta, a natureza é aliança e não exílio! A palavra em si, não é tão perecível quanto o individuo que a compõe, mas corre imensos riscos, enquanto elemento… podem parecer preciosismos e lugares comuns de mau gosto, mas ao poeta, desaparecida a figura, o símbolo de pureza do profeta, torna-se numa espécie de último reduto dessa utopia que é o ser humano como parte integrante e não dominante duma natureza sem vontade alguma para se deixar domar, mas que confortavelmente a temos como subjugada à vontade humana. Nesse sentido, a poesia, a escrita que se busca em si, a arte pela arte, transforma-se num elemento admirado mas indesejado: a natureza é sempre um lugar de adorno, complementar, um lugar de alucinados… um pouco como uma religião, uma loja de conveniência: enquanto adorno não é nociva, mas como leitora atenta do mundo, a poesia é um lugar incómodo por não se alimentar de “realidades”, mas de possibilidade. O poeta, aí, desempenha o papel ingrato da escrita: mais que um profeta, é um intruso!
O que é Melancolia, Leonardo, e como o Poeta pode administrá-la, sem sucumbir? [Aliás, chega de poetas suicidas!]. A que você, Leonardo, atribui o naufrágio-suicídio de tantos e tantos poetas, inclusive em Portugal? A menção de Mário de Sá-Carneiro, neste contexto, pode ser emblemática. Fernando Pessoa recitou, no obituário do poeta suicida-suicidado, que Portugal, de fato, não merecia Mário de Sá-Carneiro. Portugal merece seus poetas de hoje? Algum lugar os merece?
Creio que é sempre prematuro comprimir o poeta, o escritor, nos seus atributos. O acto da escrita não liga bem com a noção de efémero que é tão querida ao mundo em que nos movimentamos, essa noção incómoda do tempo que se apresenta ao predador de sonhos que é o poeta, é muito limitada. Creio que o dramatismo que serve de invólucro à maioria das biografias dos artistas, é sempre mais um lugar caprichoso de que se alimentam os biógrafos, que propriamente um retrato lúcido do poeta enquanto individuo, enquanto ser que não vive acima das coisas do mundo, mas nelas e por elas.
Creio que da mesma forma se alimenta permanente e vorazmente a ideia dum Deus possessivo, vingativo e quase paranóico, na cultura ocidental, da mesma forma transparece uma imagem de que o poeta tem que andar com uma arma encostada às têmporas, a tempo inteiro; penso que em matéria de utilização das definições dos próprios sentimentos, o ser humano ainda é muito imberbe e talvez por uma questão de utilidade, interesse … mas aproveita a quem pensar que o poeta não tem sentido de humor, por exemplo? Aproveita a quem, que no quotidiano do poeta tudo “tem que ter uma explicação”, um significado, um pormenor que o diferencia dos comuns mortais; mais que melancolia, atribui-se uma mórbida qualidade ao poeta… o suicídio! Mas talvez que se coloque a questão duma forma errónea… a taxa de suicídio entre as forças policiais, diz-se, é muito superior à dos poetas e alguém se interroga sobre facto? E em comum apenas existe uma certa obsessão pela “ordem”, pela impossibilidade, pela constatação das próprias fraquezas diante dum mundo em permanente desordem, em ténue equilíbrio entre as suas forças. Existem poetas, artistas que “aguentam” essa pressão, outros não. Mas a desgraça não é dístico exclusivo para o artista… infelizmente, essa condição última expressa-se mais abundantemente onde menos se espera.
Nesse sentido o poeta, o indivíduo que procura em si uma superação pela palavra, e nesse espelho o acto e realização da “arte pela arte”, pode parecer estranho: mas ao escritor será sempre aposto o distintivo de outsider e deve ter a consciência da sua condição. A ordem do mundo não vai mudar só porque um individuo assim o deseja… e aí, o poeta parte em desvantagem: é um ingénuo, é um tolo de alma e coração, e como tal, de fácil predação! O artista, confunde muitas vezes, como um tipo sedento no deserto, a ordem do mundo e os movimentos imperceptíveis que este entende tomar… muitas vezes, o artista complica e complica-se nessa versão do mundo: ao invés de o contemplar, interiorizar para o reflectir, prefere tomar o próprio nas suas costas, como um peso com o qual só se perde tempo e energias, não entendendo a abstracta e fatal estratégia da teia da aranha. O poeta, umas vezes consegue a superação, outras não… o mais das vezes revela-se no papel de vítima de incompreensão, como ser mais vulnerável às coisas do sentido, e como tal, sucumbe mais facilmente: não serve de consolo, mas depois de dois milénios e qualquer coisa, alguém de bom juízo pode afirmar que a Jesus, já tenha sido alguma vez “compreendido”? E quando invoco Jesus, invoco qualquer centelha de divindade… se o entendimento não é imediato, a mensagem perde o relevo! Não é o mundo que desejava ter herdado, nem muito menos o que deixará por herança… mas convenhamos que o poeta, como artista que trabalha e vive noutro terreno, pode constantemente sugerir o mundo, mas não criá-lo ou recriá-lo!
Por outro lado, não serve de álibi, mas ajuda a compreender um pouco o facto da maioria dos poetas e outros artistas que mais iluminaram a cultura portuguesa, tenham conhecido a desgraça em vida e por consequência, as fatais mortes dos mesmos não tenham sido mais que isso mesmo: uma fatalidade! Portugal, mais que merecendo ou não os seus artistas, é um país lixado para o acto criativo. Portugal é acima de qualquer dúvida um país autofágico, e na grandeza, é-o o mais das vezes por acidente: partilho da opinião que Jorge de Sena tinha de que “o facto de Portugal ter produzido um Fernando Pessoa é um feliz acaso europeu que não implica nem garante, de forma alguma, uma literatura portuguesa no século XX”. É difícil encontrar resquícios daquilo que poderíamos chamar de identidade cultural portuguesa e como tal o mundo da arte ressente-se: a arte é quase sempre entendida como algo superficial, sem utilidade imediata e como tal dispensável. Não que entenda nesse complexo um sentido prático dum povo ou cultura, mas antes uma predisposição para eliminar de imediato o que não é compreensível. Portugal, mais que pequeno, é um país que sobrevive da mesquinhez e da inveja, mesmo entre elites… não vive, nem deixa viver! Agora, se merece ou não os seus poetas, é uma questão tão prática como paradoxal… um dos maiores poetas vivos da actualidade, que saiba, nunca foi um nome sugerido sequer, para um prémio maior, quanto mais para o Nobel. Falo de António Ramos Rosa…e lá está: não é um acrobata, ou malabarista ou algo que o valha, paciência! Fica com as homenagens da praxe quando se finar, que é por assim dizer o patamar mais elevado para os nossos artistas! Mas este é apenas um exemplo entre muitos que poderia ser salientado… e daí a apetência, penso, de novos valores, pese o valor da expressão, de partilhar experiências, a um primeiro tempo, por meio digital e só depois partir para outros desafios, ainda que os meios tradicionais já não pressuponham os mesmos prestigio e desafio de outrora e como tal, são pouco estimulantes e redutores. Ninguém, gostaria de pensar, convive bem com a ideia de ser co-autor do crime que é o “mais um livro na estante, que nunca vai ser aberto”. E aí, falo da edição de autor ou da edição em pequenas editoras que esfolam o autor até ao último cêntimo, a troco dum momento muito curto, curtíssimo, de glória.
Qual é o circo que cerca o escritor? E quanto isso lhe cerceia as Letras?
Por enquanto nada, porque não tenho compromissos com o mundo da edição… o meu único veiculo é o mundo digital, a Internet e sinto-me muito bem! Ainda não consegui, depois destes anos todos, encaixar a ideia que um poeta, um escritor só se realiza quando tem um livro editado, é que “acontece”… É muito redutora essa concepção. Não descuido que tarde ou cedo, e espero ter para tal o devido discernimento, o mundo da edição em livro será uma realidade: oxalá! Mas por ora, como escritor em construção, se assim me posso exprimir, sou mais um bicho de mato, um rude escritor desajustado com as “obrigações” a que se deve um escritor. Exemplifico: no JL, um jornal de referência no mundo cultural português desde há muito, constava na última edição, acerca dum encontro de Slam Poetry, que “ ideia é alimentar a construção dum texto colectivo, nascido da colaboração de todos os presentes. Em ambiente descontraído, com comes e bebes à mistura, procura-se dar à luz um novo trabalho escrito, seja ele em prosa ou em verso, que não pertença a um, mas sim a todos”… e até aqui nada de mal se não fosse a omnipresença do “comes e bebes”: Portugal acontece onde há “comes e bebes”… doutra forma, nada feito! E sublinho o trabalho do jornalista que não mostra sequer nenhum pudor em destacar o essencial: “comes e bebes à mistura”! Lança um livro, e o poeta tem que oferecer “uns comes e bebes”; comemora-se uma data e tem que haver “comes e bebes”… até nos funerais, lá estão eles, os omnipresentes “comes e bebes”. E penso que haveria muito a ganhar se nos inclinássemos mais para o essencial, que tornar um evento num limitadíssimo e pouco substancial serviço de restauração… é bom, mas não é tudo! E no meio, o escritor faz as vezes de cobaia que distribui autógrafos e beijinhos em avulso… é um papel pouco dignificante e um pouco de dignidade é como aquela roupa que não passa de moda: fica sempre bem em qualquer circunstância.
O escritor não é mercadoria, como podem muitos editores pretender… e cada um procura tirar os maiores proveitos possíveis por conta do escritor, a quem compete escrever… escrever! O poeta deve escrever e o vendedor de livros vender… e digo-o com alguma propriedade porque já vendi livros porta-a-porta e tenho imenso respeito por essa e todas as profissões e ocupações (bom, há uma ou outra, que admito que o mundo passaria muito bem sem ela!). O “circo” da edição é deprimente o mais das vezes… e na minha pobre opinião, o escritor raramente deveria comportar-se como um futebolista ou como actor de cinema: todos desconfiamos dos produtos em promoção no supermercado, não é verdade? Um escritor em “saldos”, a implorar um prémio aqui ou ali, o escritor com uma estratégia de marketing é quase sempre um espectáculo deprimente… é com agrado que qualquer escritor gostaria de chegar ao milhão de exemplares, mas pergunto-me: qual o preço? Com que embrulho? Quantas polémicas terá que inventar? Chega ao milhão por mérito ou por uma campanha publicitária bem montada por uma multinacional? Acima de tudo, há que fazer opções e não penso que o mundo da edição seja linear… mas a questão do preço a pagar é sempre pertinente.
Não quero dizer que abomine todos os “aparatos” do mundo, mas se assim for, então não sou nem tenho a ambição de transportar o “rótulo” de escritor e já é tarde para o futebol: escrevo por prazer… e quando o fizer por dever, tenha este caro discernimento para se retirar de imediato! Já transporto culpas suficientes para ter suportar as do tempo bem como a do dever “da imagem”!
Você é um hábil retratista de pessoas e cotidianos, não importa que apresentados com tons quase-surrealistas ou oniróides. É a familiaridade com a dor que te faz atento às nano-percepções que os ambientes [humano-pessoal e sócio-geográfico] te oferecem? Talvez um retraimento que lhe acompanhou o desenvolvimento? Como você enxerga a timidez quase arredia dos Simbolistas portugueses [dos quias te vejo herdeiro, em linha de descendência oblíqua]: António Nobre, Camilo Pessanha. O que se passa na cabeça daquele que escreve contando nunca ser lido, senão por alguns amigos. Pessanha mal guardava seus poemas com o devido zelo...
Todos são casos particulares e o mais das vezes de dificil percepção pelo mundo exterior ao da própria escrita. Não me sinto acorrentado num estilo particular, mas se o tivesse que fazer, tal como Pessoa e não vejo aí mal, o de invocar um poeta maior, negaria o simbolismo na minha poesia e se acontece será sempre de forma acidental, o que não me traumatiza, nem envergonha. Mas, o meu caminho na poesia, procura mais o contorno, o reflexo, o jogo de sombra e luz, o estranho jogo da liberdade poética e da luz ténue do jogo entre fantasia e realidade.
E acontece que por muito elogiosas que me sejam feitas determinadas comparações ou heranças, não as posso tomar com propriedade e por inteiro, por não me sentir merecedor de uma tal “chama” que me é estranha, seja por desconhecimento, por agnose deste ou daqueloutro autor que me possa ser atribuída determinado momento estético. Prefiro sustentar a hipótese do “acidente temporal”, porque pelo lado da minha pobre formação académica, grande parte do percurso natural do leitor, foi-me vedado; voluntariamente ou por imposição de prioridades, note-se.
Durante muito tempo, e se bem que escreva desde muito cedo na maturidade, não tomei a sério a possibilidade de divulgar por meio algum, a minha escrita. Por vezes, creio que por preconceito, por vezes insatisfação, licita ou não: acredito que Sena, e mais uma vez, não anda longe de realçar a autenticidade dum conjunto importante de factores, um estado determinante quando afirma que “por um complexo mórbido de modéstia (… em que longe de amadurecer, o poeta se refugia no espanto doloroso de ser uma pessoa como as outras que faz, todavia, coisas que outras pessoas não fazem – e isto sucederá tanto mais quanto limitado for o mundo espiritual do poeta e mais elevado o grau da sua refinada sensibilidade), então o poeta, se raramente se encontra com a poesia, mais raramente se encontrar+a com ela. (…) Aqueles, porém, que ultrapassam tais dificuldades (e o carinho dum circulo de amigos, o reconhecimento das elites, um status social seguro em que a actividade poética não seja uma doença vergonhosa, contribuem, muitas vezes decisivamente para que a maturidade autêntica sobrevenha) transformam o seu próprio mundo interior e verbal numa experiência que aprenderam a impor às suas intuições poéticas.”… E daí, que pense frequentemente na irrelevância que tiveram as “correntes” no meu percurso, porque não existiram… de todo. Muito mais moldado pela circunstância que pelo tempo, a existir “algo” na minha escrita será um acidente: dentro do meio que me envolveu praticamente toda a vida de escrita, esta andou pelas tempestades que Sen a salienta, a propósito das condicionantes da prática da escrita. Esta esmoreceu durante uma boa parte do meu percurso e ainda estaria, por certo, arredada se não fosse o mundo digital, um meio agradável para quem está afastado dos “circuitos” e de uma forma ou de outra, não expõe essa “doença vergonhosa” da escrita, por um mínimo de pudor ou por motivos de “sobrevivência”, um importante veiculo a quem se pensa já como “um caso perdido”.•
Daí, que por conta própria e “sábia ignorância”, debaixo duma condição de “suficiente grau pureza” pelo lado da insipiência, esta parte do percurso literário me seja muito favorável: por muitas que sejam as comparações ou heranças a alegar, não me sinto vinculado a uma “corrente” ou estilo. A palavra acontece, por foi acontecendo e não se perdeu.
No teu caso: as gavetas estão abarrotadas de coisas-poemas por rever? Você gosta de rever-se?
Não, de todo. É-me desagradável mesmo a revisão de textos antigos. A minha escrita, se se pudesse reduzir a uma imagem, seria a de um comboio que adquirindo um determinado ritmo, uma determinada velocidade, que não lhe agrada voltar atrás, à última estação por se ter esquecido dum passageiro atrasado… não por falta de respeito ao passageiro, mas por necessidade de prosseguir, ainda que desconheça em absoluto a estação última, o destino…
A revisão dum texto hoje, já não me é tão dolorosa quanto o era, mas a minha insatisfação continua por cá… incómoda, mas continua. Não tanto a de textos poéticos, mas mais a de textos mais densos… e se for o caso de haver curiosidade, diria que não é saudável ter um manuscrito de um romance, terminado há mais de dois anos, por rever… ainda que seja também obra heterónima, mas não de Leonardo B., lá está, em dois arquivadores, à espera sabe Deus de quê: talvez que me passe a preguiça! - O mesmo acontece com toda a obra poética que vai de 1983 a 1996 e que acondicionei num blog que está encerrado, por ora, a aguardar a compilação dos momentos que penso mais relevantes e que foi, por assim dizer, a minha porta de entrada no mundo dos blogs: não sabia o que fazer às gavetas e arquivadores que se espalhavam, sem qualquer ordem, e decidi que à medida que ia destruindo o papel, o texto “saltava” para a Última Estação de Ricardo S., o nome do blog… e acrescento a isto um Conto Infantil, que só duas ou três pessoas conhecem, e aguarda um caminho também… talvez um destes dias!
Não há muito para contemplar, naquilo que escrevo: aprecio muito, andar, ir sempre em frente… aliás aborrece-me sobremaneira rever um texto, ainda que a leitura de outrem seja um autêntico prazer… mas o mundo gira e amanhã ou um destes dias, talvez que seja tudo diferente!
Arte para você é "Cerimônia", no sentido Ritual-Litúrgico do termo? Diga-me as ambiências que propiciam maior altitude a Leonardo B., por sobre este nosso chão tão raso.
Não há segredos ou fórmulas mágicas, mas no meu caso, ajuda-me muito uma compreensão da minha intuição, das necessidades do lado mais orgânico, o reconhecimento do momento: é um processo longo, mas não muito árduo. O amadurecimento, se posso alegar semelhante estado, trouxe-me algo positivo para o acontecimento da escrita… importam-me mais os momentos, os apelos da palavra, a urgência, que um “modus operandi”! Com o tempo, esses tiques passam. Tal como o Za Zen, a poesia acontece em qualquer parte, porque tem que acontecer: se o ambiente for sereno, tanto melhor… mas não necessito de conventos para a escrita! Já me basta o peso dos ossos e da restante massa do corpo!
Não tenho uma forma específica de trabalhar e penso que não vou ter nunca: pode parecer ridículo, mas o romance que falei atrás, o único completo que está por rever, “aconteceu” duma forma muito particular e diria até dolorosa… para que não me incomodassem a tempo inteiro, que “estava” muito tempo atrás dum monitor e coisas do género, eu e a minha esposa engendrámos um esquema que se não foi perfeito, foi pelo menos engenhoso… passei quatro meses “doente”, ou para lá caminhava: Durante esse tempo, não tive horários, mas por norma escrevia das nove da manhã até às três, quatro, cinco da manhã seguinte, sentado na cama, sem escrivaninha, rodeado duma montanha de livros e papéis espalhados por todo o lado. Foi muito enriquecedora, a experiência, mas não creio que a volte a tomar… escrever em demasia, faz mal às costas!
Há cantores-poetas extremamente arredios e/ ou que mascaram a timidez, eventualmente, até a absoluta excentricidade. Ou olham pra baixo, ou mastigam as palavras, ou berram como se quisessem fugir. Penso em Tom Waits e em Bob Dylan, em meio a dezenas de exemplos [Michael Jackson se enquadraria neste grupo, sendo "a máscara no rosto e a transformação de si para fugir de si, tentando nem ser mais este híbrido", só o efeito colateral complicador no seu caso; em seus clips, veem-se até metamorfoses animais!]. O que vc acha desses poetas da música? Podemos ficar só em Tom Waits e em Bob Dylan, já que os exemplos são inúmeros.
Talvez mais paradigmático seja o caso de Leonard Cohen, quanto mais não fosse pelo facto de ter escolhido como seu Nome-Dharma, Jikan, enquanto permaneceu no Mount Baldy Zen Center como monge, sendo que Jikan, parece-me, significa “o que se dedica ao silêncio”.
A insatisfação conhecida de Cohen em relação ao seu trabalho, a sua permanente luta interior, aproxima bastante o poeta desse mundo em que mais que essências ou conteúdos, são mais importantes os reflexos que se apresentam como uma possibilidade de despersonalização, ao mesmo tempo que prossegue um caminho aparentemente seguro, aparentemente desconhecido, mas que em todo o caso se reflecte e origina obras de arte que se superam, muito para lá da concepção original. A história da música está pontuada aqui e ali com este tipo de compositores que se superam, muito para lá do imaginado por si próprios: no entanto, creio que todos eles têm um ponto em comum: a extraordinária capacidade para a insatisfação, a desilusão perante as “exigências” irrelevantes à própria obra… como se a busca estivesse muito para além das aparências…
A morte é a cura da vida, ou há uma cura anterior a esta "assim-chamada-última"?
Há uma tentação enorme, por parte do escritor, de explicar a morte fenómeno, a morte na sua dupla referência, ou contraponto, o inverso da vida, mas eu prefiro a abordagem das cinzas, do retorno do corpo ao seu estado integral na natureza… ou não fosse um principio de vida, uma matriz para a vida: “das cinzas às cinzas”!
O poeta serve-se das alegorias da morte, do obitus, com excessiva leveza, com uma obsessão quase doentia ao modo de Brueghel no Triunfo da Morte, mas o que se explica quando não há nada a explicar, senão aceitar… ou melhor, tomar o reflexo e daí tentar uma compreensão unívoca, mas uma percepção diversa, assim como a temos para as coisas da vida: por vivermos, por nos sentirmos imbuídos de vida, saberemos explicar melhor a dita? Então o que fazer da concepção da morte, quando não a conseguimos abordar senão no interior da imaginação. A mors não é fim, mas antes uma passagem de tempo, um acidente no lapso de tempo, um passamento, ou assim o quero acreditar… já o obitus, carecendo de certidão, acontece porque assim o decidimos.
Você lê autores místicos? Ouve músicas sacras? O fado ainda é uma liturgia da memória e pesares salmodiados em Portugal, ou este debruçar-se sobre as ausências [pelo menos de forma tão assumida...] já está fora de uso? A Argentina ainda precisa do Tango [a saudade passionalizada, mais irritadiça que melancólica], e nós do Samba [a melancolia transfigurada em "pisos e levezas", ou catapultada ao rir para seguir em frente; os "pagodes românticos" ainda suspiram pelo leito ou beijos da amada...]. Portugal ainda precisa do Fado?
Portugal precisa do Fado porque não tem muito mais aonde se agarrar. É um pouco como o futebol: vai vendendo, mesmo que seja gato por lebre. Não sou especialista, nem gosto muito de opinar sobre a questão do Fado, enquanto tal, mas a ideia que passa para o exterior, da curiosidade étnica ou estética, acerca do género musical é muito díspar… encontramos de tudo: puristas que negam o novo fado ou os novos fadistas, o que vai dar no mesmo, optimistas natos que sobrevalorizam a qualidade de qualquer objecto que se mova e brilhe, e ainda os expectantes que não gostam de ver convertidos “valores” em modas: a morte é súbita, quando se chega a esse estatuto. As modas são efémeras em demasia e pelo caminho levam excelentes intérpretes que se deixaram deslumbrar pela facilidade “do êxito”… e como é difícil o ponto de equilíbrio! Agora, e se Arquimedes já sabia desta história toda? Claro que sabia!
Quanto aos meus gostos, ou audições, já o meu ecletismo me atraiçoa, o mais das vezes… mas gosto que assim o seja: não aprecio os seres monótonos que se agarram a um estilo de música, a um estilo de escrita, a um estilo de arte… é muito limitado, o ser e estar linear, muito certinho que senão cai! Mas o facto de não apreciar a monotonia, não quer dizer que não a respeite… muito antes pelo contrário: ainda que seja parvoíce fingir que não sabemos que o eclético desdenha o ser monótono e vice-versa; ou melhor, desdenhamos todo aquele que difere de nós, nem que seja por uma questão de princípios.
Mas, da música sacra ou autores místicos? Recebo-os na minha casa interior com um prazer inexprimível… hajam oportunidades: ainda que faça sempre a advertência de que a minha inexperiência, ou ouvido “desafinado” possa não corresponder ao resultado esperado… mas tenta-se sempre de novo!
Quais as liberdades que o uso de um heterônimo confere? É algo facilitador ou "híbrido-problematizador"? Por que Pessoa precisou de quatro? Aqui entre nós, Mário de Andrade se sabia mais de trezentos, e não se despudorava em usar sempre o mesmo-outro Mário de Andrade. Isso é fruto da timidez, ou possibilita a "evocação" de avatares ocultos? Seria algo como um "rito de conjuração"?
Não é uma questão fácil de abordar, mas também não é difícil… a questão dos heterónimos, que utilizo, por um determinado principio surgem do nada e vão maturando e passam um crivo invisível, uma espécie de processo inverso de desambiguação. Não se trata de capricho ou pretensiosismo, mas antes e apenas uma opção, como a de quem arruma os livros numa estante: uns ordenam, outros não, outros ainda não querem estantes e maioria nem sabe como os arrumar… nesse sentido, há uma ordem possível: tentativa e erro!
Ao contrário do que se possa pensar, o heterónimo permite uma liberdade de movimentos que por vezes não se alcança com um nome próprio… é apenas uma questão de escolha, um nome: Leonardo B. não é excepção. O que me permite, acima de tudo, é uma movimentação sem grandes pressões, sobretudo no meio que me rodeia, o que pode parecer ambicioso, e é de facto: disfarçar as grandezas e as misérias dum poeta, numa aldeia pequena como a minha não é fácil, pois que ninguém, ou poucos, sabem quem é Leonardo B.! Pois que qualquer das formas, se olhassem com mais atenção ficariam exactamente no mesmo ponto: ninguém, ou poucos, sabem quem sou, e no entanto falam comigo, condenam-me as horas que passo atrás dum computador, pretendem “adivinhar” o que motiva a minha ausência… ou seja, talvez não seja mais que um jogo, um espelho onde me escondo e tento comprovar com a ciência que me é permitida, resolver o enigma maior do ser humano: o que está por detrás da aparência?
No meu caso, não há muito a esconder, não há rito, não há matéria para vasculhar. Um nome, como tudo na vida, é acidente… a forma como o abordamos é que esconde muitas propostas: a minha, como se fosse uma divisa, é precisamente Disce Ultra Aparentium Videre, aprende a ver para além das aparências, condição maior para a poesia…
Se o consigo ou não? Isso já é outra história…
Obrigado, Leonardo.
[entrevista editada no Bloco de Notas, de Marcelo Novaes, 2 de Julho, 2010 - imagem de Leonardo B.]
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volto depois pra ler tudinho...adoro vcs dois!
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